Tudo à minha volta estava tão frio, tão cru. Já nada tinha cor e textura, já nada tinha essência, sentido e logica. O meu deja-vu tinha dado certo, não foi sonho. Os ramos das arvores estavam estáticos e carregados de neve, como o peso da minha consciencia. Sente-se um bocadinho do cheiro a lenha queimada que sai das chaminés e castanhas assadas que os vendedores tentam vender com muitas dificuldades, nos seus carros de mão.
Permaneci no meio do grande jardim cheio de neve, sozinha, de pé, de mãos nos bolsos, tentando aquecer-me ao máximo no meu casaco vermelho de grandes botões, esse que tanto gostas, surda e muda, à tua espera. Sabe-me a vento, sabe-me a terça-feira de céu enublado triste, sabe-me a presenças invisiveis, sabe-me a maus pressentimentos. Hoje é dia 23 de Dezembro, não sinto que amanhã seja Natal, tudo o que me rodeia é tão feio e selvagem que só me apetece estalar os dedos e fugir, as pessoas correm loucas e atarefadas de um lado para o outro de grandes sacos e embrulhos na mão, como se isso fosse muito urgente. Por favor, não estou pra espiritos natalicios, não estou pra festas, postais de Natal anuais, nem consumismos. É ridicula esta época, este ano é ridicula! Não sinto nada! Apenas sinto que este Natal já nao estarás ao pé de mim no sofá, agarrados, partilhando carinhos e Marshmallows acompanhados com chocolate quente, e amando em frente à lareira.
Continuei a esperar por ti, nunca foste bom com horários. Pensei em chorar, mas o frio congelava-me as vontades. Pensei chamar por ti, pensei ligar-te, mas nesse momento apareceste, foi como se fosse telepatia. Frente-a-frente, ficámos a olhar um para o outro, minutos... sem pronunciar uma palavra. Dei por mim a pensar no primeiro beijo e nas noites de amor que passámos. Distancias-te, desligaste de mim aos poucos, estavas perdido e os teus lábios foram tocar noutra maldita boca. Eu sabia-o, nojo foi o que senti, mas continuava a amar-te. Queria bater-te, mas queria beijar-te, é um tipico amor-ódio. O silêncio estava a dar cabo de mim. Começaste a chorar e quis abraçar-te, tocar nos teus cabelos e limpar-te as lágrimas, mas continuei no meu lugar, forte, poderosa e fria.
"Desculpa", beijaste-me uma ultima vez e foste embora. A tua imagem ao longe ia desvanecendo como nevoeiro. O nosso amor sempre fora especial. Quis dizer-te mais uma vez amo-te, mas deixei-te ir. Senti um camião passar por cima de mim, senti o pior espirito natalicio, senti-me como se sem alma.
(Estava inspirada, apeteceu-me)



